A resposta curta

O rótulo não muda quem paga você. Um título verde, social ou sustentável é um título comum com um compromisso sobre o destino do dinheiro; um vinculado à sustentabilidade muda o cupom conforme o país cumpra ou não metas mensuráveis.

No título sustentável que o Brasil emitiu em novembro de 2023, de USD 2 bilhões a 6,250% e com vencimento em 2031, o dinheiro foi usado para pagar dívida externa, e o país se comprometeu a alocar um valor equivalente a gastos verdes e sociais; não fazer isso não é um inadimplemento do título. No do Uruguai com vencimento em 2034, o cupom de 5,750% pode subir ou cair até 0,30 ponto a partir de outubro de 2027, conforme duas metas ambientais.

Dois tipos de título com rótulo

A diferença está no que o país promete e no que acontece se ele não cumprir.

Dois tipos de título com rótulo de sustentabilidade, segundo os prospectos do Brasil e do Uruguai de novembro de 2023
O quêDe uso dos recursos: verde, social ou sustentávelVinculado à sustentabilidade
O que o país prometeAlocar um valor igual ao arrecadado a gastos que cumpram o seu arcabouçoAtingir metas medidas por indicadores, em um ano fixo
Se não cumprirNão é inadimplemento do títuloO cupom sobe
O que muda para vocêO destino declarado do dinheiro e os relatóriosO cupom que você recebe
ExemploBrasil, 6,250%, 2031Uruguai, 5,750%, 2034

Brasil: o dinheiro paga dívida e um valor igual vai para gastos elegíveis

Segundo o suplemento de prospecto do Brasil, o país recebeu cerca de USD 1,967 bilhão líquidos da comissão dos coordenadores e os destinou ao pagamento de dívida pública externa. Em 5 de setembro de 2023 tinha aprovado o seu arcabouço de títulos soberanos sustentáveis, que prevê alocar um valor igual ao arrecadado a gastos verdes e sociais elegíveis por meio de uma alocação virtual: sem conexão direta entre o dinheiro do título e esses gastos, e não necessariamente como uma fonte nova de orçamento.

O Brasil se propôs a alocar entre 50% e 60% a categorias verdes e entre 40% e 50% a sociais, com gastos feitos de 1º de janeiro de 2023 até 24 meses depois da emissão. Com os recursos líquidos, isso dá entre USD 984 milhões e USD 1,180 bilhão para o verde; a conta é nossa. O país prevê publicar relatórios de alocação e de impacto, com um relatório de asseguração limitada de um terceiro independente, e o arcabouço teve uma segunda opinião da Morningstar Sustainalytics.

O que esse título não promete

Os fatores de risco do mesmo documento são claros. Se o Brasil não seguir as práticas de alocação e de relatórios do seu arcabouço, isso não constitui inadimplemento nem evento de inadimplemento do título. Não há garantia de que ele aloque gastos em valor igual ao arrecadado, o arcabouço não faz parte dos termos do título, e nem o arcabouço nem a segunda opinião criam uma obrigação exigível.

O prospecto acrescenta que não há consenso no mercado sobre o que torna «verde», «social» ou «sustentável» um gasto ou um título, e que, se o país não alocar o dinheiro conforme o arcabouço ou não atender ao que esperam os investidores com esse foco, o preço do título no mercado poderia ser afetado.

Uruguai: um cupom que depende de duas metas

O suplemento de prospecto do Uruguai de novembro de 2023 reabriu os seus títulos 5,750% em dólares com vencimento em 2034, emitidos em outubro de 2022, e levou o total em circulação a USD 2.199.975.998. São títulos soberanos vinculados à sustentabilidade, com dois indicadores: a intensidade das emissões brutas de gases de efeito estufa por unidade de PIB real e a área de floresta nativa. Para cada um há duas metas, medidas em 2025, o ano de observação:

  • Meta 1.1: reduzir pelo menos 50% das emissões por unidade de PIB real em relação a 1990.
  • Meta 1.2: reduzi-las em mais de 52%.
  • Meta 2.1: manter pelo menos 100% da área de floresta nativa de 2012.
  • Meta 2.2: aumentá-la em mais de 3% em relação a 2012.

Como o cupom se move

A partir de 28 de outubro de 2027, se o Uruguai não cumprir a meta 1.1, o cupom sobe 0,15 ponto, e se não cumprir a 2.1, mais 0,15. Se cumprir a 1.2, cai 0,15, e se cumprir a 2.2, mais 0,15. Os efeitos de cada meta são independentes e podem se compensar. Se o Uruguai não entregar a tempo ao agente fiduciário o certificado que confirma os resultados, verificados em um relatório com o PNUD, o cupom sobe 0,30 ponto; e se os resultados não puderem ser calculados, informados ou verificados a tempo, aplica-se o aumento como se ele não tivesse cumprido.

Os juros são pagos em 28 de abril e 28 de outubro, e o capital é devolvido em três parcelas iguais, em 2032, 2033 e 2034. A tabela supõe todo o capital em aberto.

Cupom por USD 10.000 de valor nominal do título 5,750% 2034 do Uruguai, conforme o resultado das metas (conta nossa, com todo o capital em aberto)
Resultado das metasTaxa anualCupom semestralPor ano
Cumpre as duas metas mais exigentes, 1.2 e 2.25,45%USD 272,50USD 545
Cumpre a meta mais exigente de um indicador e fica entre as duas do outro5,60%USD 280,00USD 560
Fica entre as duas metas de cada indicador5,75%USD 287,50USD 575
Não cumpre a meta básica de um indicador e fica entre as duas do outro5,90%USD 295,00USD 590
Não cumpre nenhuma meta básica, ou não entrega o certificado a tempo6,05%USD 302,50USD 605

O risco continua sendo o do país

Os títulos do Uruguai são dívida externa direta, geral, incondicional e não subordinada do país, com a mesma prioridade do resto da sua dívida externa não subordinada. O rótulo não muda quem paga você nem quanto risco de crédito você assume: isso é medido pela classificação de risco e pelo risco país. E o preço continua se movendo com os juros, como explica o guia sobre por que o preço de um título cai quando os juros sobem.

Chile, com quatro indicadores

O suplemento de prospecto do Chile de janeiro de 2026 resume a história do seu arcabouço. O Chile adotou o seu primeiro arcabouço de títulos vinculados à sustentabilidade em 2022 e emitiu USD 2 bilhões; em junho de 2023 o atualizou com um indicador de igualdade de gênero e emitiu USD 2,25 bilhões e EUR 750 milhões; em julho de 2025 acrescentou um indicador de biodiversidade. O arcabouço vigente tem quatro indicadores.

O que procurar no prospecto

Cinco perguntas que o suplemento de cada título responde.

  • Na parte sobre o uso dos recursos, para onde vai o dinheiro e se a alocação é direta ou virtual.
  • Nos fatores de risco, se descumprir o arcabouço é inadimplemento do título. No do Brasil, não é.
  • Que relatórios o país promete, quem os revisa e quando são publicados.
  • Em um título vinculado, os indicadores, as metas, o ano em que são medidas, quanto o cupom muda e a partir de quando.
  • Se o cupom pode cair além de subir. No do Uruguai, pode.

O que esta página não faz

Lemos no EDGAR os suplementos de prospecto do Brasil e do Uruguai de novembro de 2023 e o do Chile de janeiro de 2026 em 23 de outubro de 2026. Não lemos os arcabouços de cada país nem os seus relatórios de alocação ou de impacto, e não sabemos se o Uruguai cumpriu as metas de 2025. Os cupons em dólares e a faixa de alocação do Brasil são contas nossas. Esta página não é uma recomendação de investimento.

Fontes

  1. SEC EDGAR — República Federativa do Brasil, suplemento de prospecto dos títulos globais 6,250% com vencimento em 2031 (novembro de 2023): uso dos recursos, arcabouço de títulos sustentáveis e fatores de risco
  2. SEC EDGAR — República Oriental do Uruguai, suplemento de prospecto da reabertura dos títulos 5,750% em dólares com vencimento em 2034 (novembro de 2023): títulos soberanos vinculados à sustentabilidade
  3. SEC EDGAR — República do Chile, suplemento de prospecto de notas vinculadas à sustentabilidade (janeiro de 2026)

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