Antes da taxa, a promessa

Dois títulos do mesmo governo podem mostrar taxas parecidas e prometer coisas diferentes. Um fixa um número. Outro acompanha uma taxa de referência que muda. Outro paga a inflação e mais um pouco.

Os governos do Brasil, do México e dos Estados Unidos emitem as três famílias. Os nomes mudam.

Três famílias, três países

A tabela reúne o que cada programa oficial publica: o Tesouro Direto para o Brasil, o cetesdirecto para o México e o TreasuryDirect para os Estados Unidos.

Títulos públicos por tipo de taxa
TipoBrasilMéxicoEstados Unidos
Taxa fixa, um pagamento no vencimentoTesouro PrefixadoCETESTreasury Bills
Taxa fixa, com juros periódicosTesouro Prefixado com juros semestraisBONOS: a cada seis mesesTreasury Notes e Bonds: a cada seis meses
Taxa variávelTesouro Selic: ligado à taxa SelicBONDES F: a cada 28 dias, ligados à TIIE de FondeoFloating Rate Notes: a cada três meses
Ligado à inflaçãoTesouro IPCA+: IPCA mais uma taxa fixaUDIBONOS: em UDISTIPS: principal corrigido pelos preços

Taxa fixa: você conhece o número, não o preço

Com taxa fixa você sabe, desde a compra, quanto vai receber se esperar o vencimento. O Tesouro Direto diz que cada unidade de um título prefixado paga R$ 1.000,00 brutos no vencimento. Um CETES mexicano é comprado abaixo do valor nominal de 10 pesos, e o ganho é a diferença. Uma note ou um bond do Tesouro americano paga a mesma taxa a cada seis meses até vencer.

Dois limites. O próprio Tesouro Direto lembra que esse rendimento é nominal: para saber o ganho real é preciso descontar a inflação. E o preço no caminho se mexe com os juros de mercado, como explica o guia de preço e taxa de juros.

Taxa variável: o número acompanha uma referência

Aqui a taxa não é fixada na compra. O Tesouro Selic tem rentabilidade diária vinculada à Selic, a taxa básica de juros. Os BONDES F mexicanos pagam juros a cada 28 dias, ligados à TIIE de Fondeo, uma taxa de referência de um dia. Nas notas de taxa flutuante dos Estados Unidos, que duram dois anos, a taxa soma duas partes: uma que acompanha a letra do Tesouro de 13 semanas e muda toda semana, e um spread que fica fixo desde o leilão.

O que você ganha acompanha a referência. Se ela sobe, você recebe mais. Se cai, recebe menos. Não dá para saber de antemão quanto vai entrar.

Ligado à inflação: uma taxa acima dos preços

A terceira família promete uma taxa real. O Tesouro IPCA+ rende a variação do IPCA mais os juros definidos na compra; há uma versão que paga tudo no vencimento e outra com juros semestrais. Os UDIBONOS mexicanos são emitidos em UDIS, uma unidade cujo valor em pesos muda com o índice de preços do México, e pagam uma taxa fixa a cada seis meses.

Nos TIPS americanos, o que é corrigido é o principal: sobe com a inflação e cai com a deflação. A taxa é fixa e paga a cada seis meses sobre esse principal corrigido. No vencimento recebe-se o principal corrigido ou o original, o que for maior.

Cada um protege da inflação do seu país, medida pelo seu índice. Não protege da inflação de outro país nem do câmbio.

Prefixado ou IPCA+: a conta de equilíbrio

Para comparar um título de taxa fixa com um ligado à inflação falta um dado que ninguém tem: a inflação futura. O que dá para calcular é a inflação de equilíbrio, a que deixa os dois iguais.

Um exemplo com taxas supostas, que não são de nenhum título: 8% ao ano prefixado contra inflação mais 3%. A conta é (1 + 0,08) ÷ (1 + 0,03) − 1 = 4,85%. Se a inflação ficar abaixo de 4,85%, o prefixado rende mais. Se ficar acima, rende mais o indexado.

A conta supõe um ano, que você espera o vencimento e que não há impostos nem custos.

8% prefixado contra inflação + 3% (exemplo hipotético, um ano)
Inflação do anoRende o prefixadoRende o indexadoTaxa real do prefixado
2%8,00%5,06%5,88%
4,85%8,00%8,00%3,00%
7%8,00%10,21%0,93%

Os três podem mudar de preço

Nenhuma família livra você do preço de mercado se sair antes. O Tesouro Direto recompra os títulos pelo valor de mercado no resgate antecipado, e o retorno pode ser diferente do combinado. O TreasuryDirect explica que os títulos americanos são «negociáveis» porque podem ser vendidos antes do vencimento.

Quanto o preço se mexe depende do tipo e do prazo. Para os prefixados, o guia de preço e taxa de juros faz a conta.

E se o que você tem é um token

Um token com exposição à dívida pública herda o tipo dos títulos que lhe dão lastro. A pergunta é qual: taxa fixa, variável ou inflação, e com que prazo. A resposta está na documentação do emissor. Nesta página não revisamos a carteira de nenhum token.

O resto não muda: vender no mercado e resgatar com o emissor são operações diferentes, como explica o guia de título direto ou token, e o resultado na sua moeda depende do câmbio. Teste no simulador.

Em quatro linhas

O que vale olhar antes de comparar duas taxas.

  • Taxa fixa: você sabe quanto recebe no vencimento, na moeda do título.
  • Taxa variável: você recebe o que a referência marcar em cada período.
  • Inflação: você recebe uma taxa acima dos preços daquele país.
  • Nos três casos, sair antes é vender a preço de mercado.

Fontes

  1. cetesdirecto — perguntas frequentes (CETES, BONOS, BONDES F e UDIBONOS)
  2. Tesouro Direto — regras e regulamento
  3. TreasuryDirect — títulos negociáveis do Tesouro dos Estados Unidos
  4. TreasuryDirect — TIPS, títulos protegidos contra a inflação
  5. TreasuryDirect — notas de taxa flutuante (FRN)

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