A resposta curta
Quando o noticiário diz que o risco-país está em 300 pontos, fala de uma diferença de taxas: quanto a mais rendem os títulos desse governo em dólares em relação aos do Tesouro dos Estados Unidos. Cem pontos-base são um ponto percentual, então 300 pontos são 3 pontos a mais de rendimento por ano.
Essa diferença, o spread, é o que o mercado cobra de um governo pelo risco de ele não pagar. Quanto mais alto, mais caro fica para ele se endividar, e mais você ganha se comprar e tudo der certo.
O que é, segundo uma nota de bancos centrais
Uma nota da Secretaria Executiva do Conselho Monetário Centro-Americano o define assim: o risco-país é a probabilidade de um governo não cumprir as suas obrigações financeiras, e nas economias emergentes se relaciona sobretudo com a dívida com não residentes.
A mesma nota explica como ele é medido. O indicador mais citado, o EMBI, é a diferença entre a taxa de um título de um governo emergente e a de um título livre de risco, em geral um do Tesouro dos Estados Unidos, e é calculado e publicado pelo JP Morgan Chase. O exemplo da nota: se o título do governo rende 8% e o do Tesouro 5%, a diferença é de 300 pontos-base. As opiniões da nota são dos autores, não necessariamente do Conselho.
Como aparece em uma emissão real
O spread não é só um índice: toda vez que um governo vende títulos em dólares em Nova York, a ficha da emissão o informa. A do México de 22 de junho de 2026, apresentada à SEC, colocou 4,8 bilhões de dólares em notas com cupom de 6,250% que vencem em 2037, a um preço de 99,039%.
A ficha cita o título do Tesouro de referência, um de 4,375% que vence em maio de 2036 e rendia 4,519%, e o spread: 185 pontos-base. Somados, dão o rendimento da emissão, 6,369%. No mesmo dia, o México ampliou as suas notas de 2056 com um spread de 195 pontos sobre um Tesouro de 2056: com prazo maior, o mercado pediu um pouco mais.
| Dado | Notas 6,250% 2037 | Notas 6,750% 2056 |
|---|---|---|
| Valor | 4,8 bilhões de dólares | Mais 1,5 bilhão de dólares, sobre 2 bilhões já emitidos |
| Tesouro de referência | 4,375% maio de 2036, rende 4,519% | 4,750% fevereiro de 2056, rende 4,958% |
| Spread | 185 pontos-base | 195 pontos-base |
| Rendimento até o vencimento | 6,369% | 6,908% |
| Classificações | Baa3, BBB e BBB- | Baa3, BBB e BBB- |
A referência depende da moeda
Em dólares, a régua é o Tesouro dos Estados Unidos. Em euros é outra. Quando o Brasil vendeu notas em euros em 15 de abril de 2026, a ficha mediu o spread contra um título do governo alemão: as notas de 5,500% para 2036 renderam 5,627%, 258,4 pontos acima de um título alemão de 2036 que rendia 3,043%. As classificações do Brasil nessa ficha são Ba1, BB e BB.
Por isso não convém comparar um spread com outro sem olhar moeda, referência, prazo e data. O guia de classificação de risco explica o que dizem essas letras, e o de títulos em outra moeda, quanto o câmbio pesa.
Se o spread sobe, o preço cai
Para quem já tem o título, o spread também é um risco de preço. Com os dados da ficha de 2037, que reproduzem o preço de 99,039%, suponha que o Tesouro não se mexa e o spread passe de 185 para 285 pontos-base: o rendimento sobe para 7,369% e o preço cai para 91,563, 7,55% a menos. Se o spread cair 50 pontos, o preço sobe para 103,069.
São mudanças hipotéticas, não uma previsão. O guia de duration explica por que um título longo se mexe tanto, e o de preço e taxa, por que preço e rendimento andam em sentidos opostos.
| Spread | Rendimento | Preço | Variação |
|---|---|---|---|
| 135 pontos | 5,869% | 103,069 | +4,07% |
| 185 pontos, o da emissão | 6,369% | 99,039 | |
| 235 pontos | 6,869% | 95,207 | −3,87% |
| 285 pontos | 7,369% | 91,563 | −7,55% |
O que o spread não diz
Não é uma probabilidade que alguém publique, e sim um preço de mercado. A nota do Conselho Monetário Centro-Americano explica que nele pesam os fundamentos da economia, as instituições, a política econômica, a situação externa e a estabilidade política e social, o que em conjunto forma o ânimo dos investidores. Entre as situações externas, a nota cita as crises econômicas e fatos extraordinários como desastres naturais ou guerras.
Também não mede tudo o que arrisca quem compra dívida em moeda local, como um CETES ou um título do Tesouro: aí pesam também a inflação e o câmbio.
Quatro perguntas para ler o número
Servem para uma notícia, para uma ficha ou para a tela de uma corretora.
- É o spread de um título ou um índice que faz a média de vários?
- Em que moeda está o título e contra que referência é medido?
- Em que prazo? No México, o título de 2056 pagou mais spread que o de 2037.
- Comparado com quando? Um spread muda todos os dias.
O que esta página não faz
Lemos a nota do Conselho Monetário Centro-Americano e as fichas do México e do Brasil em 16 de outubro de 2026. Não lemos a metodologia do EMBI, publicada pelo JP Morgan, nem consultamos o valor dele hoje. As mudanças de spread da tabela são hipotéticas; os preços saem da fórmula com os termos da ficha.
A denominação mínima das notas do México é de 200.000 dólares. Esta página não é uma recomendação de comprar nenhum título.
Fontes
- Secretaria Executiva do Conselho Monetário Centro-Americano — Riesgo país en la región CARD, Notas Económicas Regionales nº 152, janeiro de 2024
- Estados Unidos Mexicanos — termos das notas 6,250% 2037 e 6,750% 2056, 22 de junho de 2026 (EDGAR)
- República Federativa do Brasil — termos das notas em euros 5,500% 2036, 15 de abril de 2026 (EDGAR)
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