Uma gangorra

Quando os juros de mercado sobem, o preço dos títulos de taxa fixa cai. Quando os juros caem, o preço sobe. A SEC, o regulador de valores dos Estados Unidos, chama isso de risco de taxa de juros e compara com uma gangorra: a taxa em uma ponta, o preço na outra.

O Tesouro Direto descreve o mesmo efeito: um aumento na taxa de juros de mercado em relação à taxa aplicada provoca queda no preço do título, e uma diminuição tem o efeito contrário. No extrato, isso aparece como marcação a mercado: o saldo acompanha o preço pelo qual o título é negociado naquele momento.

A razão é simples. Um título que já existe paga o que prometeu no dia da emissão. Se hoje saem títulos novos pagando mais, ninguém compra o antigo pelo mesmo preço: ele precisa ser vendido mais barato para render o mesmo que os novos.

O exemplo da SEC

O boletim usa um título do Tesouro dos Estados Unidos de USD 1.000 de valor nominal, com prazo de 10 anos, cupom de 3% e comprado por USD 1.000. Um ano depois, a taxa de mercado muda um ponto.

Refizemos a conta com cupons semestrais e nove anos pela frente, e ela confere: 1.081,99 e 925,04. O título continua pagando 3% sobre o valor nominal nos três casos. O que muda é quanto outra pessoa pagaria hoje por ele.

Um título com cupom de 3%, segundo o exemplo da SEC
Taxa de mercadoPreço do títuloRendimento até o vencimento para quem compra
3% (ponto de partida)USD 1.0003%
Cai para 2%USD 1.0822%
Sobe para 4%USD 9254%

O prazo multiplica o efeito

Quanto mais distante o vencimento, mais o preço se mexe diante da mesma mudança de taxa. A SEC resume assim: quanto maior o prazo, maior o risco de taxa de juros. O cupom também pesa: entre dois títulos iguais em todo o resto, o de cupom mais baixo cai mais quando os juros sobem.

Para ver isso, uma conta nossa com um título hipotético sem cupons que paga 1.000 no vencimento, como um prefixado. Supomos que a taxa de mercado passa de 8% para 9% ao ano, com capitalização anual e anos inteiros. É uma conta simplificada, e não são taxas de nenhum mercado.

O mesmo ponto de taxa mexe menos de 1% no preço do título de um ano e quase 9% no de dez.

Título hipotético de 1.000 no vencimento: preço conforme a taxa
PrazoPreço com 8%Preço com 9%Variação
1 ano925,93917,43-0,92%
3 anos793,83772,18-2,73%
5 anos680,58649,93-4,50%
10 anos463,19422,41-8,80%

Em um título curto, o efeito é pequeno

Os CETES mexicanos são um bom exemplo de prazo curto. O Banxico os descreve como títulos de cupom zero: são vendidos abaixo do valor nominal de 10 pesos, não pagam juros no caminho e liquidam o nominal no vencimento. A fórmula de preço é P = VN / (1 + r × t / 360), em que r é a taxa de rendimento e t é o prazo em dias.

Com essa fórmula e taxas supostas: um CETES de 28 dias vale 9,9228 pesos com 10% e 9,9152 com 11%. A diferença é de 0,08%. Com 364 dias, passa de 9,0817 para 8,9991, 0,91% a menos.

Com as letras do Tesouro dos Estados Unidos acontece o mesmo. O TreasuryDirect explica que elas são vendidas com desconto e que a diferença entre o valor nominal e o preço pago é o juro.

Se você esperar o vencimento

A queda de preço só vira perda se você vender. O Tesouro Direto diz isso dos títulos brasileiros: quem fica até o vencimento recebe a rentabilidade definida na compra; no resgate antecipado, o Tesouro recompra pelo valor de mercado, e o retorno pode ser diferente do acordado. A SEC diz o mesmo dos títulos do Tesouro americano: o preço pode mudar, mas no vencimento são pagos os juros prometidos e o valor nominal.

No título hipotético de cinco anos: você compra por 680,58 e, no dia seguinte, a taxa sobe para 9%. Se vender, recebe 649,93, ou 4,50% a menos. Se esperar, recebe 1.000 no vencimento, que é o 8% ao ano aceito na compra.

Esperar tem um custo. Durante esses anos seu dinheiro rende 8% enquanto o mercado paga 9%. E a garantia de um governo cobre o pagamento, não o preço: a SEC esclarece que o governo dos Estados Unidos não garante o valor de mercado de um título vendido antes do vencimento.

E se o que você tem é um token

Um token com exposição à dívida pública não escapa dessa relação: se os títulos da carteira valem menos, a exposição vale menos. Como e quando isso aparece no preço do token depende da estrutura dele, e está na documentação do emissor, não nesta página.

Duas perguntas ajudam. Qual é o prazo dos títulos que lastreiam o token: quanto mais longos, mais sensíveis à mudança de juros. E como você sai: vender no mercado e resgatar com o emissor são operações diferentes, como explica o guia de título direto ou token. Se você mede o resultado em outra moeda, some o câmbio com o simulador.

Em quatro linhas

O que vale lembrar antes de comparar taxas.

  • Juro para cima, preço para baixo. Juro para baixo, preço para cima.
  • Quanto maior o prazo, maior o movimento.
  • Até o vencimento, recebe-se o combinado. Antes, o preço de mercado.
  • A garantia do emissor cobre o pagamento, não o preço.

Fontes

  1. SEC — Investor Bulletin: Interest rate risk (junho de 2013)
  2. Tesouro Direto — regras e regulamento
  3. Banxico — descrição técnica dos CETES
  4. TreasuryDirect — preços e taxas de juros

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