Dois retornos para o mesmo título
Um título paga na moeda dele. Um título do Tesouro paga reais, um CETES paga pesos mexicanos, um Treasury paga dólares. Se o seu dinheiro e os seus gastos estão em outra moeda, o título tem dois retornos: o anunciado, na moeda dele, e o que sobra para você depois de converter.
A SEC, o regulador de valores mobiliários dos Estados Unidos, põe isso entre os riscos próprios de investir fora do país: quando muda a taxa de câmbio entre o dólar e a moeda do investimento, o seu retorno pode aumentar ou diminuir.
Uma publicação da mesma SEC explica o mecanismo do ponto de vista de um investidor americano. Você recebe na moeda local e depois converte. Se essa moeda se fortaleceu diante do dólar, os ganhos viram mais dólares. Se enfraqueceu, viram menos.
A conta
São três dados: o retorno do título na moeda dele, o câmbio na entrada e o câmbio na saída. Se o câmbio é expresso em unidades de moeda local por dólar, a conta é esta.
Dólares no fim = dólares no início × câmbio de entrada × (1 + retorno local) ÷ câmbio de saída.
É a mesma fórmula do simulador de câmbio deste site, sem os custos. Eles entram mais abaixo.
Um exemplo com USD 1.000
Os números são inventados. Não são taxas nem cotações de nenhum dia.
Você converte USD 1.000 em reais a 5,00 por dólar e compra um título que rende 9% em um ano. No vencimento, tem 5.450 reais. Quantos dólares isso dá depende do câmbio daquele dia.
Com o dólar no mesmo preço, você ganhou 9%. Com o dólar 15% mais caro, perdeu 5,22%, embora o título tenha pagado tudo o que prometeu.
| Reais por dólar na saída | Variação do dólar | Dólares no fim | Retorno em dólares |
|---|---|---|---|
| 4,50 | -10% | USD 1.211,11 | +21,11% |
| 5,00 | 0% | USD 1.090,00 | +9,00% |
| 5,25 | +5% | USD 1.038,10 | +3,81% |
| 5,45 | +9% | USD 1.000,00 | 0,00% |
| 5,75 | +15% | USD 947,83 | -5,22% |
O ponto de equilíbrio
A quarta linha da tabela é a que vale guardar. Com uma taxa de 9%, você sai no zero a zero se o dólar subir 9%, de 5,00 para 5,45. Até aí, a taxa compensa a moeda. Além disso, você perde.
Dito de outro jeito: a moeda local pode perder até 8,26% do seu valor em dólares antes de o resultado ficar negativo. Os dois números descrevem a mesma coisa. Um mede quanto o dólar sobe; o outro, quanto a moeda cai.
A tabela repete a conta para outras taxas. Uma taxa mais alta dá mais margem. Ela não diz se a margem vai bastar: isso depende de quanto a moeda se mover.
| Retorno local | O dólar pode subir até | A moeda local pode perder até |
|---|---|---|
| 5% | 5,00% | 4,76% |
| 9% | 9,00% | 8,26% |
| 12% | 12,00% | 10,71% |
| 15% | 15,00% | 13,04% |
Ao contrário: ganhar em reais e comprar em dólares
A conta funciona nos dois sentidos. Se você ganha em reais e compra um título em dólares, o seu retorno em reais vem do título e do quanto o dólar se mover.
Outro exemplo inventado. Você converte 5.000 reais em USD 1.000 e compra um título que rende 4% em um ano: termina com USD 1.040. Se o dólar continua em 5,00, são 5.200 reais, 4% a mais. Se subiu para 5,25, são 5.460 reais: você ganhou 9,20%. Se caiu para 4,75, são 4.940 reais: você perdeu 1,20%, com um título que pagou tudo.
Quem compra dólares porque espera que a própria moeda enfraqueça assume essa posição de propósito. Vale saber: boa parte do resultado pode vir do câmbio, e não do título.
Converter custa duas vezes
Para comprar um título em outra moeda, você converte na entrada e de novo na saída. Cada conversão tem um custo, que pode estar em uma tarifa ou na diferença entre o preço de compra e o de venda da moeda.
Se no primeiro exemplo cada conversão custa 0,5% e o câmbio não se move, os USD 1.000 terminam em USD 1.079,13. O retorno cai de 9,00% para 7,91%. O custo de 0,5% é uma hipótese para a conta, não o de nenhum provedor.
Em prazos curtos pesa mais. Um título de 28 dias com uma taxa de 9% ao ano rende perto de 0,70% nesse prazo. Duas conversões de 0,5% custam quase 1%: mais do que todo o juro.
As exposições deste site estão em cinco moedas
As cinco exposições que descrevemos acompanham dívida em moedas diferentes: CETES em pesos mexicanos, TESOURO em reais, USTRY em dólares, EUROB em euros e GILTS em libras.
Para cada uma vale a mesma pergunta: em que moeda você vai gastar esse dinheiro. Se for outra, some à taxa o câmbio de entrada e o de saída. O guia de título direto ou token explica o que mais muda com um token.
Quando não dá para converter
A taxa de câmbio não é o único risco de moeda. A SEC avisa que alguns países podem impor controles cambiais que restrinjam ou atrasem a saída de divisas, para os investidores ou para a empresa em que investiram.
Antes de entrar, confirme como vai sair: em que moeda você recebe o dinheiro, por qual via e com quais limites.
Em que moeda está a sua meta
A Lex, que oferece tokens de títulos públicos, resume isso no seu guia: uma taxa alta em uma moeda pode ser anulada se essa moeda cair diante da moeda em que você gasta, e vale comparar os títulos na moeda da sua meta, e não só pela taxa anunciada.
Se a meta está na mesma moeda do título, o câmbio não entra na conta. Se está em outra, você comprou duas coisas: um título e uma posição em uma moeda.
Em quatro linhas
Para ter à mão antes de comparar taxas entre países.
- Um título em outra moeda tem dois retornos: o local e o seu.
- Se você conta em dólares, sai no zero a zero quando o dólar sobe o mesmo que o título rende.
- Você converte duas vezes, e as duas custam.
- Teste os seus números no simulador de câmbio.
O que esta página não faz
Não prevê nenhuma taxa de câmbio e não diz que moeda vale a pena. Todas as taxas e cotações dos exemplos são inventadas. As contas deixam de fora impostos, taxas do produto e mudanças de preço do título antes do vencimento.
As páginas da SEC falam de investidores dos Estados Unidos que compram ativos de outros países. Usamos a explicação delas porque o mecanismo é o mesmo para qualquer par de moedas. O guia de preço e juros cobre o outro risco, o de vender antes.